Por Emenson Silva: Quem Paga, Manda!
Com a proximidade do encerramento de mais um ciclo, o fim de 2025 e do primeiro ano da atual gestão municipal, convido vocês a seguirem essa série de análises, sem nenhuma pretensão de imposições, mas num e exercício de cidadania e compromisso com a nossa terra. Uma trilogia de reflexões sobre alguns dos pilares que moldam a nossa sociedade. Não venho aqui vestido das minhas credenciais de comunicador, sócioeducador ou um humilde pensador. Deixo essas funções no cabide, sem abandonar a responsabilidade que carregam, para falar como o que sou antes de qualquer diploma, um ilheense que ama este chão. Hoje, inicio esta caminhada falando sobre algo que deveria ser compromisso sagrado para quem comunica: postura, responsabilidade e a relação, às vezes romântica e às vezes tóxica, entre grande parte da nossa imprensa e o poder.
Ilhéus cresce, respira e se reinventa, mas ainda há quem insista em tratá-la apenas como “a cidade” e não como o município estratégico, complexo e vivo que é. Não escrevo para dar sermão ou impor regras, muito menos para servir como bússola moral. Escrevo para compartilhar percepções e inquietações, e reforçar algo básico, se escolhemos comunicar, escolhemos servir. Nosso maior compromisso não pode ser com quem banca a notícia, mas com quem precisa dela para se orientar nesse mar revolto de desinformação, o povo de Ilhéus.
O que temos visto, porém, é um fenômeno cada vez mais evidente. Quando o PIX pinga, Ilhéus se transforma na Disneylândia do litoral. Tudo parece mais leve, mais bonito, quase mágico. Basta atrasar um único dia e pronto, as farpas surgem, as denúncias explodem, as análises inflamam. A cidade vira palco de indignações cuidadosamente dosadas. Parece até previsão do tempo, “Hoje teremos sol com possibilidade de crítica caso o depósito atrase”. Isso revela que parte da nossa imprensa tem funcionado como um termômetro da folha de pagamento, não da realidade social. Rui Barbosa dizia que a imprensa é a vista da nação, porém em certos casos ela anda míope, e míope seletivamente.
E sejamos francos, isso não é exclusividade nossa. Adorno já alertava para a mídia como instrumento de controle das massas e suas reflexões se encaixariam tão bem em Ilhéus que talvez ele pedisse uma cadeira cativa nas rádios matinais. Mas para equilibrar esse repertório, vale lembrar Darcy Ribeiro, que dizia que o Brasil não tem problemas, tem soluções que ainda não foram tentadas. Ilhéus, às vezes, parece seguir a mesma lógica.
Quando a imprensa esquece seu dever, perde mais que credibilidade, perde a confiança do cidadão comum, aquele que acorda cedo, trabalha no comércio, pesca e faz a cidade girar. Esse povo, que deveria ser o foco, virou figurante numa novela em que o protagonista, curiosamente, é sempre o caixa.
Outro problema é o grupismo ilheense, uma espécie de tribalismo tropical que faria antropólogo desistir da carreira. Aqui, se você já trabalhou com o Grupo A, é automaticamente suspeito para o Grupo B, e vice-versa. Vivemos em um eterno “nós contra eles”, sem juiz imparcial e sem espaço para nuance. Discordar parece crime, neutralidade vira suspeita e ponderar, então, é quase ofensa.
Para completar a ironia, a mesma turma que prega liberdade de expressão como mantra (desde que a liberdade seja a deles) não tolera a menor brisa de discordância. Tocar em algo incômodo basta para surgirem etiquetas, pessimista, oposicionista, frustrado, invejoso, criador de “narrativas”. É um espetáculo previsível.
Voltaire dizia que defenderia até a morte o direito do outro de falar. Em Ilhéus, alguns leriam isso e responderiam que defenderiam, sim, desde que o outro concordasse primeiro. John Stuart Mill reforçava que silenciar uma opinião é roubar a humanidade e é exatamente isso que perdemos quando o debate é sequestrado por interesses, perdemos humanidade, profundidade e a chance de evoluir.
Mas nem tudo é sombra. Há jornalistas e comunicadores comprometidos, sérios, que seguem a velha escola de colocar a verdade acima do conforto. Eles lembram do essencial, o jornalismo é serviço público, manutenção da democracia, freio de arrumação, fiscalização dos poderosos e não cumplicidade com eles.
Este editorial não é caça às bruxas nem santificação de ninguém. É um convite para revisitar Ilhéus com olhos limpos, aqueles olhos que Jorge Amado dizia que só quem ama de verdade sabe usar. É um chamado para recolocar os pés no nosso próprio chão e cuidar do lugar de onde viemos, porque compromisso com Ilhéus não é bajular governos e sim, honrar quem vive aqui. Pertencer é mais que morar, é estender o olhar para além da própria sombra.
Esta é apenas a primeira pincelada. Outras virão e prometo que cada uma delas será tão provocativa quanto necessária. Se quiser continuar analisando a cidade comigo e seguir nessa trilha de reflexões, então, vem comigo!